Os livros podem fazer parte de vários momentos do dia. Da hora de comer, de dormir, de brincar… Podem também acompanhar marcos importantes do desenvolvimento – como quando chega o momento de dar adeus às fraldas ou de ir pela primeira vez ao colégio, como acontece com o famoso ratinho de Guido Van Genechten, mesmo autor de O que tem dentro da sua fralda? (Brinque-Book, 2010), e Vamos dormir? (Brinque-Book, 2023). Em seu mais novo lançamento, Vamos para a escola? (Brinque-Book, 2026), com tradução de Camila Werner, nosso conhecido protagonista vive seu primeiro dia como um estudante cheio de curiosidade…. e encontra na escola um lugar onde sempre se pode aprender algo novo.

Há também livros que são pensados especialmente para momentos que fazem parte da rotina. Um deles é A soneca da coelha (Brinque-Book, 2026), de Julia Donaldson e Axel Scheffler, que acaba de sair aumentando a coleção “Contos do Bosque das Castanheiras.” Neste livro, voltado para leitores da primeiríssima infância, com edição cartonada, abas e texto rimado, a coelha encontra uma poltrona deliciosa para cochilar… Mas quando começa a relaxar, seu soninho é logo interrompido por um barulho muito alto…. É o urso carpinteiro! A pequena coelha, então, parte em busca de outro cantinho para tirar cochilinho. A cada página, acontece o mesmo: e o sossego da pobre coelha é sempre interrompido. E nesse ritmo, a criança pode ela mesma ir se preparando para um cochilinho…

Ainda que os livros – e a literatura – não tenham que servir para funções específicas, ter em casa obras que se conectem a momentos da rotina pode, sim, ajudar as crianças a viverem com mais leveza momentos do dia a dia que para elas podem ser desafiadores. Enquanto para nós, adultos, escovar os dentes, tomar banho e ficar sentado à mesa para comer podem parecer situações corriqueiras, porque já entendemos como elas funcionam, para as crianças, podem despertar estranhamento e até a sensação de que se trata de algo imposto, arbitrário, injusto. “Nesse sentido, a literatura oferece um espaço particularmente interessante porque permite falar sobre essas experiências sem precisar falar diretamente sobre a própria criança, mas de modo que ela possa se identificar, projetar suas questões e se inspirar nos modelos apresentados. O adulto deixa temporariamente de ocupar exclusivamente a posição de quem exige uma mudança e passa a ocupar a posição de quem acompanha, traduz, interpreta e desenvolve uma conversa. Isso pode diminuir a dimensão de confronto da situação”, explica a psicóloga Natalia Pinheiro Orti, professora na The School of Life Brasil.
Ela lembra que, para a psicologia do desenvolvimento, a criança pequena ainda está construindo recursos para nomear, compreender e regular estados emocionais. E isso faz com ela dependa da regulação e apoio oferecidos pelos adultos, especialmente em situações novas como aprender a dormir sozinha, ir à escola, deixar a fralda ou aceitar a escovação. “Essas situações podem produzir experiências de perda de controle, ansiedade de separação, estranhamento da novidade ou exigência motora, emocional e comportamental que desafie o repertório atual da criança”, explica.
É claro que é importante lembrar que a literatura não é apenas uma preparação para a vida, mas “uma experiência da vida em si mesma”, como afirma a psicóloga Shaiene Lima. “Uma criança que lê ou escuta uma história pode encontrar nela algo que corresponde ao que está vivendo, mas também pode encontrar aquilo que ainda não conhece. Pode se reconhecer em um personagem, estranhar suas escolhas, desejar ser como ele ou rejeitá-lo completamente. A história oferece, assim, um espaço para experimentar outras formas de ser”, explica.
A possibilidade de representar e ser representado nas histórias
A literatura tem um caráter simbólico, que permite representar até situações que ainda não vivemos e que talvez nem vivamos. As histórias podem transformar experiências pessoais em universais porque conseguem simbolizá-las. Isso faz com que aquilo que é vivido concretamente pela criança passe a existir também como representação externa. “A experiência deixa de ser apenas algo que ‘acontece comigo’ e passa a poder ser observada, narrada, imaginada e compartilhada”, explica Natalia.
Os livros podem servir como testemunho da diversidade, da ambiguidade e da interconexão das experiências humanas, mostrando que aquilo que vivemos pode assumir diferentes formas e sentidos. Ao mesmo tempo em que ampliam o mundo da criança, podem ajudá-la a encontrar, nas histórias e nos personagens, elementos de sua própria experiência, criando possibilidades de imaginar, reconhecer e elaborar diferentes maneiras de estar no mundo”, Shaiene Lima, psicóloga
Livros que apresentam momentos e eventos que fazem parte do dia a dia podem ajudar a criar uma certa previsibilidade sobre os acontecimentos, identificando como as ações se repetem no cotidiano e as sequências que fazem parte delas. Assim, a criança encontra certa segurança na ficção, conectando-a àquilo que vivencia em sua própria realidade. Shaiene cita como exemplo livros sobre desfralde, que podem realizar em si mesmas algo do próprio processo de desfralde: “aquilo que antes estava guardado e pertencia à intimidade do corpo passa a ser colocado para fora, tornando-se assunto, palavra e imagem. Cocô e xixi ganham nome, podem ser representados e compartilhados, transformando-se em linguagem”, explica. Ela chama atenção para a própria experiência de controle que o livro, como objeto oferece, uma vez que a criança pode, com autonomia passar pelas páginas, levantar as abas, voltar para o ponto da história que desejar, ler, reler e até levar o livro para distraí-la enquanto estiver sentada no penico.
Mas há um cuidado. A ideia não é buscar, através do livro, uma “solução” para uma situação desafiadora para a criança. Nem dizer como ela deve se portar ou reagir. Mas, sim, mostrar que mais gente se sente assim e que pode ser desafiador para outras pessoas também. Nesse sentido, é preciso estar atento para que a literatura – e os livros – não sejam usados com esse objetivo de ensinar ou de dar uma lição. Para Natalia, é melhor que a “literatura funcione menos como uma tentativa de convencimento explícito e mais como uma oportunidade para elaboração da criança, através da observação, nomeação e descrição dos aspectos envolvidos. Em outras palavras, a literatura não precisa resolver o problema da criança para ajudá-la”.
Mas o que faz uma criança se identificar com um livro?
Enxergar-se em um livro ou em um personagem específico e conectar-se com ele é algo que pode acontecer às crianças por diferentes caminhos. Shaiane explica que pode ser algo relacionado à idade, às características físicas, à configuração familiar ou a uma experiência concreta vivida pela criança, como o desfralde, a chegada de um irmão ou a entrada na escola. “Mas também pode acontecer a partir de algo menos evidente: um medo, um desejo, uma curiosidade, um conflito ou uma maneira de se relacionar com os outros. Uma criança pode se reconhecer em uma personagem que não se parece com ela, mas que sente algo que ela também sente”, pontua.
Para ela, essa relação que a criança estabelece com determinados livros e personagens também pode ser importante para a construção de seu vínculo com a leitura. “Quando uma história desperta curiosidade, identificação, encantamento ou mesmo estranhamento, o livro pode se tornar um objeto ao qual a criança deseja retornar. Reler uma história, reencontrar um personagem ou acompanhar novamente uma narrativa conhecida são formas de construir intimidade com os livros e, pouco a pouco, fazer da leitura uma experiência que lhe pertence”, explica.
Como tornar os livros parte da rotina?
Veja algumas dicas:
- Espalhe livros pela casa, pensando em lugares acessíveis às crianças, como cestos e prateleiras baixas, pode contribuir para elas possam pegar, folhear e explorar espontaneamente.;
- Deixe a criança explorar e manusear o livro com autonomia – mesmo que suje, rasgue, isso faz parte da experiência e ajuda a estabelecer uma relação mais próxima e pessoal com os livros.
- Crie momentos de leitura compartilhada com a criança, tornando o ato de ler também uma oportunidade de fortalecer o vínculo, ocupando um lugar de afeto;
- Escolha horas do dia específicas para a leitura, estabelecendo rituais com os livros. Pode ser antes de dormir ou um momento de sentar e relaxar junto depois do almoço.
