Para festejar um Natal bem brasileiro

 

Quando o Baile do Menino Deus começa, todos se calam. As crianças sobem ao palco, as luzes preenchem o ambiente, acompanhadas pelas canções compostas por Antônio Madureira. É que a peça de Natal, escrita há 34 anos por Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, já virou tradição no Brasil, principalmente no Nordeste. Em Recife, há 14 anos é encenada anualmente na Praça do Marco Zero, nos dias 23, 24 e 25 de dezembro.

 

 

Depois dos livros Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval, a ideia dos dois autores era prosseguir com o que chamam da trilogia As festas brasileiras, desta vez representando um Natal brasileiro, diferente daquele por vezes anunciado na TV. "Antonio Madureira, Assis Lima e eu nos queixávamos da invasão de renas, Jingle Bells e neve falsa no Natal brasileiro, e resolvemos criar uma brincadeira para nossos filhos cantarem e representarem durante o ciclo natalino", conta Ronaldo. "Tivemos a sorte de viver em meio a reisados, lapinhas e bois, a herança do Natal ibérico assimilada no Nordeste do Brasil pelas populações rurais e urbanas, incorporadas às culturas indígena e negra."

Daí os elogios de críticos como o sociólogo e compositor Sebastião Vila Nova, que reconheceu a originalidade da peça. "Não se trata de um espetáculo nordestino a mais, desses dos quais a sobrecarga de folclore nos faz exóticos até para nós mesmos. […] E que ninguém pense em descabidas analogias com outro famoso poema dramático a respeito do mesmo tema, o de João Cabral de Melo Neto, pois o tratamento é novo, original, através de uma ótica bastante diversa da assumida pelo autor de Morte e Vida Severina."

 

 

O enredo é composto por várias figuras do reisado, festa popular do Natal. Estão inclusos personagens como o Jaraguá (mistura de girafa com jacaré), o Boi e a Burrinha, com a preocupação da fidelidade em relação à versão original da festa. Há uma tentativa de reavivar esse Natal em torno da figura do Menino Deus, que se renova a cada encenação da peça.

 

 

"Assistimos ao declínio do cristianismo, à mudança de tempo, o capital foi entronizado no lugar que antes era do sagrado", lembra Ronaldo, com ressalvas. "Existem reminiscências e desejos desse outro Natal, em pessoas de todas as idades e classes sociais. Elas podem até não saber que sentimento é esse, mas correm todos os anos, aos milhares, para ver alguma representação do Baile do Menino Deus, da mais simples à mais sofisticada, como a do Marco Zero."

 

 

Apesar dessa tentativa de conservação da tradição cristã, a peça está em constante transformação. Ronaldo a considera uma obra aberta, sempre sujeita a proporcionar novas experiências. "Mesmo para o espectador mais fiel, aquele que assiste ao Baile todos os anos e, às vezes, os três dias de encenação, há muitas novidades a descobrir e com o que se encantar."

Afinal, como anuncia o palhaço Mateus ao final da apresentação:

"O Baile aqui não termina,

o Baile aqui principia.

Sempre"

Confira, a seguir, entrevista com o autor.

 

***

Baile do Menino Deus foi criado há mais de 30 anos e tornou-se uma tradição em Pernambuco. Por que ainda hoje faz sucesso?

Ronaldo Correia de Brito – Há 34 anos para ser preciso e não é tradição apenas em Pernambuco, mas em muitas cidades do Brasil. Lançamos o disco, pela Eldorado, e o espetáculo teatral no mesmo ano. Só depois saiu publicado o livro. O Baile se manteve aceso todo esse tempo como chama que não apaga. Acho que o motivo é porque ele toca o coração das pessoas com sua poesia, brincadeiras e festa.

 

Você cresceu no Crato, cidade do Cariri cearense, certo? O que traz da sua infância para o Baile do Menino Deus?

Ronaldo Correia de Brito – O prazer de contar histórias, o encantamento com as brincadeiras populares, um olhar otimista sobre o mundo. Nas cidades do interior do Brasil, fosse no Ceará, em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, os vínculos com a tradição se mantiveram vivos até bem pouco tempo. O Crato era rico de brinquedos populares. Assis Lima e eu crescemos em meio a essas brincadeiras, que incorporamos à nossa criação.

 

Muitas imagens que são passadas do Natal (em especial na televisão) seguem uma matriz europeia. O que é um Natal brasileiro? Que figuras são essas que compõem a sua história?

Ronaldo Correia de Brito – Estados como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo receberam levas de migrantes alemães, poloneses, ucranianos e de outros países da Europa, que trouxeram um modelo diferente de Natal. É natural que ocorressem mudanças. Porém, mesmo no Nordeste, onde não aconteceram essas migrações, substituímos a tradição ibérica por figuras e costumes novos: Papai Noel, renas, trenós, neve, luzes, presentes e comida em excesso. Isso veio mais dos Estados Unidos do que da Europa, pelo cinema, pelos desenhos animados e pela Disney. Os shoppings centers reproduzem o modelo americano. Antigamente, o Natal era mais simples e as figuras celebradas eram Jesus, José, Maria e os Reis Magos, em presépios e lapinhas. Hoje, ninguém lembra quem são esses personagens. O Menino Deus foi banido da cena natalina. É bem raro uma criança saber que o Natal celebra o nascimento divino do Menino Jesus.

 

A peça tem uma musicalidade forte. Qual foi o trabalho que desenvolveram nesse sentido? As letras são suas e de Assis Lima? E como foi o trabalho de vocês com o Antônio Madureira?

Ronaldo Correia de Brito – O Baile é um teatro musical, uma cantata cênica. Assis Lima e eu escrevemos o texto e as letras do espetáculo. Antônio Madureira fez as músicas e nós gravamos em disco. É bom trabalhar em parceria, sempre surgem ideias novas. O Baile do Menino Deus foi o primeiro lançamento de uma trilogia que chamamos As festas brasileiras.  O segundo, foi Bandeira de São João e, o terceiro, Arlequim de Carnaval. Todos os textos foram publicados pela Alfaguara, que agora pertence à Companhia das Letras.

 

Há músicas que falam do Jaraguá e da Burrinha, figuras bem presentes em folguedos como o reisado. Essas canções são originais ou recolhidas da oralidade? Pode contar um pouco a história desses personagens?

Ronaldo Correia de Brito – Existe uma frase antiga, que afirma o seguinte: em Cristo até os opostos se conciliam. Ela explica a presença de tantas figuras estranhas, algumas até extravagantes como o Jaraguá, na cena do presépio. São dois mil anos de representações, as mais variadas, desse nascimento divino. No reisado, uma festa popular do Natal, numa das cenas aparece o Jaraguá, mistura de girafa com jacaré, que provavelmente é uma criação da cultura negra e indígena. Nas doze músicas que compõem o texto original, este que foi publicado pela Companhia das Letrinhas, nós incluímos Boi, Burrinha e Jaraguá, tal como eles aparecem nos reisados. Mudamos alguma coisa nas letras, mas fomos fiéis à versão tradicional.

 

Poderia nos contar um pouco como a peça é celebrada em Pernambuco?

Ronaldo Correia de Brito – Nos dias 23, 24 e 25 de dezembro, encenamos o Baile do Menino Deus, na Praça do Marco Zero, um lugar por onde o Recife começou há quase 500 anos. É uma festa ao ar livre. Atrás do palco fica o mar e acima de nossas cabeças o céu com a lua e as estrelas. Milhares de pessoas vêm para a festa, gente de todas as idades, muitas crianças, adolescentes, adultos e pessoas idosas. Num lugar à frente sentam as pessoas com deficiência e as famílias com bebês de colo. É um ambiente de muita paz e alegria. Quase todo mundo sabe as músicas decoradas e canta e dança durante a encenação. As crianças mais afoitas vão para junto da orquestra dançar. Quando termina, ninguém deseja ir embora. Muitos querem subir ao palco para selfies em frente ao cenário. Os artistas brincam e posam para fotografias com as crianças. As pessoas amam o Baile e assistem à peça quase todo ano. Tem quem vá os três dias. O público inclui gente de outras cidades e estados, e muitos turistas estrangeiros.

Na história, misturam-se personagens da realidade, como as crianças, e personagens dos folguedos, como o Mateus. Poderia falar um pouco desse personagem que, no Cariri, pinta a cara de preto? E porque no espetáculo encenado anualmente ele não pinta a cara de preto?

Ronaldo Correia de Brito – A máscara preta do Mateus – uma espécie de palhaço – é herança do teatro italiano de commedia dell’arte, em que havia um personagem chamado Arlequim, com o rosto pintado de preto. Esse teatro também se desenvolveu na França e nos influenciou através de Portugal. O teatro popular no Nordeste do Brasil incorporou a commedia. No Baile, nós preferimos criar uma máscara própria para o Mateus e caracterizar um novo tipo de encenação.

 

Como você vê a celebração do Natal hoje, no Brasil? A escrita desse livro foi uma tentativa de trazer outra perspectiva sobre a data?

Ronaldo Correia de Brito – Habituei-me a dizer em entrevistas que Antonio Madureira, Assis Lima e eu nos queixávamos da invasão de renas, Jingle Bells e neve falsa no Natal brasileiro, e resolvemos criar uma brincadeira para nossos filhos cantarem e representarem durante o ciclo natalino. Tivemos a sorte de viver em meio a reisados, lapinhas e bois, a herança do Natal ibérico assimilada no nordeste do Brasil pelas populações rurais e urbanas, incorporadas às culturas indígena e negra. Mas encaro sem susto o Natal ter se transformado no maior evento comercial do ano. É irreversível. O Menino Deus nem é lembrado, parece não ter nada a ver com a festa do seu nascimento. Assistimos ao declínio do cristianismo, à mudança de tempo, o capital foi entronizado no lugar que antes era do sagrado. Existem reminiscências e desejos desse outro Natal, em pessoas de todas as idades e classes sociais. Elas podem até não saber que sentimento é esse, mas correm todos os anos, aos milhares, para ver alguma representação do Baile do Menino Deus, da mais simples à mais sofisticada, como a do Marco Zero. Para essas pessoas nós escrevemos o Baile, que continua vivo, pulsante, cada vez atraindo mais público, em cartaz em todo Brasil, há 34 anos.

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