Odilon Moraes e Carolina Moreyra: parceria no livro ilustrado e na vida

Parceria na literatura e na vida. Odilon Moraes e Carolina Moreyra são autores, são artistas e são família. Pais de João, Francisco e Luísa – suas inspirações e criações fora os livros ilustrados -, eles traduzem no jogo entre palavra e a imagem a mesma sintonia que os une. O lançamento mais recente da dupla é Lá longe (Pequena Zahar), que acaba de chegar para compor a bibliografia da dupla. Juntos, Odilon e Carolina já criaram mais de dez livros, entre eles o premiado Lá e aqui (Pequena Zahar, 2015) – vencedor do Jabuti e do prêmio FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) em 2016, e selecionado para o catálogo White Ravens da Biblioteca de Munique. 

As mudanças de perspectivas que o texto e a imagem oferecem ao leitor fazem de Lá longe uma narrativa em múltiplos sentidos.

As mudanças de perspectivas que o texto e a imagem oferecem ao leitor fazem de Lá longe uma narrativa em múltiplos sentidos

 

Lá longe segue o compasso de "contar sem dizer", como diz Carolina, com a dicotomia tão marcante nas parcerias entre os autores. O que diferencia “ser humano” de “ser bicho”, se todos somos animais? Se o que chamamos de “natureza” – como se não pertencêssemos a ela – sobrevive sem os homens, quem observa quem nessa relação?

Muitos de nós já pensamos sobre isso. Mas em tempos de emergência climática e pandemia global redefinindo as possibilidades entre o longe e o perto, o dentro e o fora – dualidades sempre presentes nos livros de Odilon e Carolina -, esse debate ganha novas camadas. Ainda assim, a ideia original para o livro surgiu a partir de uma rolagem no feed do Instagram, quando a imagem vibrante de um tucano em meio à avalanche de informações digitais acendeu a estranheza entre cultura e natureza. 

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Capa do livro Lá longe, em que o leitor observa um tucano que abre os olhos ao amanhecer da floresta enquanto um menino desperta sozinho em seu quarto

 

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A linguagem do livro ilustrado: do cinema ao livro-objeto

Para Odilon e Carolina, compor narrativas há mais de uma década tem sido fruto de um trabalho realizado dia após dia. Com diálogo, cumplicidade, trocas de referências e um interesse compartilhado pela arte de contar histórias. Quem conhece as criações da dupla pode sentir como os seus livros expressam a realidade que os alimentou, como se tivessem sido tecidos com paciência e afeto.  Ao mesmo tempo, não são histórias herméticas, que se encerram em si mesmas. São narrativas que deixam pontas soltas, brechas… Espaços que se ampliam a cada leitura, a cada leitor, como um ciclo que se retroalimenta e que permite jornadas singulares. Como define Carolina, o que nasce dessa parceria é “um percurso que será percorrido por cada leitor”.

São os fatos da vida que nos empurram para a história. (Odilon Moraes, ilustrador e escritor)

O ponto de intersecção entre os dois autores, que abriu espaço para que a parceria florecesse – e rendesse tantos frutos – foi o interesse genuíno pela linguagem. O exercício de pensar as diferentes formas de contar uma história – no casamento entre texto e imagem, nas possibilidades do próprio livro como objeto e no uso de referências além da literatura – se tornou uma espécie de assinatura da parceria. “Livros ilustrados são como cinema encadernado”, diz Odilon, fazendo  referência à formação da parceira. Carolina é formada em Cinema pela London Film School. Já Odilon, em Arquitetura pela Universidade de São Paulo. 

Quero que as coisas dialoguem com a realidade de cada um. (Carolina Moreyra, escritora)

O primeiro livro da dupla foi O guarda-chuva do vovô (DCL, 2009). Depois vieram Lá e aqui (Pequena Zahar, 2015), Lulu e o urso (Pequena Zahar, 2018), Entrevistas – Conto de Fadas (Moderna, 2020), e a coleção Bia e o Elefante (Jujuba), composta por três livros, publicados entre 2020 e 2022.

 

Carolina Moreyra e Odilon Moraes, dupla na vida e nos livros infantis

Carolina Moreyra e Odilon Moraes, com o livro Lá longe (Pequena Zahar, 2023), mais recente lançamento da dupla

Nesta entrevista ao Blog da Letrinhas, Odilon e Carolina contam os bastidores de criação do lançamento Lá longe, repassam os caminhos (artísticos ou não) que os trouxeram até aqui, e refletem sobre o papel fundamental dos leitores na arte do livro ilustrado. 

 

Confira a entrevista na íntegra com Odilon Moraes e Carolina Moreyra

Blog da Letrinhas: Como começou a parceria de vocês? E como é o processo de criação e também de pesquisa no dia a dia compartilhado?

Odilon Moraes – Começou antes dos livros. Como a Carolina estudou cinema e eu já era um autor de livros ilustrados quando nos conhecemos, nossas conversas sempre tiveram pontos de encontro em relação à linguagem. Disso, para fazer um livro juntos, foi uma evolução natural. Ela já tinha uma forte relação com a palavra escrita e bastou um clique para ela compreender que livros ilustrados são como cinema encadernado, né?

 

Nesses 14 anos de criação conjunta, percebem transformações nos modos de criar de vocês – conteúdo, forma, abordagens?

Carolina Moreyra – O primeiro livro que escrevi saiu quase sem querer, inspirado na perda do meu avô, que tinha acabado de falecer. Minha formação com o cinema provocava muitas conversas com o Odilon sobre as semelhanças entre essa linguagem e a do livro ilustrado, então, de certa forma, acho que todas essas discussões apareceram ali naquele texto, mas de maneira ainda muito intuitiva. De lá pra cá, acredito que nós dois nos aprofundamos muito no estudo da linguagem do livro ilustrado e eu, particularmente, no pensamento sobre as características que o texto verbal assume na interação com a imagem nesse tipo de livro. 

O fato de dar oficinas de texto para o livro ilustrado também me permitiu apurar o olhar, exercitar uma criticidade sobre a linguagem que refletiu também no entendimento sobre o meu próprio trabalho. Quando vejo o texto de outra pessoa e enxergo que algo está errado ali, preciso explicar com clareza o que está errado, o porquê, como poderia ser resolvido. Isso demanda uma percepção da linguagem, uma verbalização de muitas coisas que antes eram intuitivas pra mim. 

Essa reflexão passou a ser feita também para os meus textos. Se, por um lado, eu sinto um amadurecimento, por outro, fico com medo de perder um pouco uma certa espontaneidade e deixar meus textos mais frios e racionais. Além disso, acho que a parceria com o Odilon só ganhou com nossa apuração da linguagem do livro ilustrado, porque temos mais repertório e ferramentas para as trocas que acontecem durante a criação de um livro. 

Quanto ao conteúdo, continuo escrevendo sobre as coisas que me tocam no dia a dia, nas minhas vivências e experiências. (Carolina Moreyra, ilustradora)

Em 2022, Odilon completou 30 anos de dedicação ao livro ilustrado. Em relação ao começo, o que mudou no cenário hoje? Há outras criações circulando, há também outros leitores e formas de ler? 

Odilon Moraes – O livro ilustrado pede uma maneira muito diferente de se ler. As palavras estão lá para serem modificadas pelas imagens e vice-versa. Acho que, cada vez mais, há leitores, editores e críticos começando a sacar essa nova forma de compreensão da narrativa. Digo sempre que nos livros ilustrados aprendemos a desconfiar das informações, sejam as vindas por intermédio das palavras, sejam as oferecidas pelas imagens. Quando colocadas juntas, elas podem estar dizendo algo muito diferente do que dizem separadas. É uma escrita (e uma leitura) que acontece no "entre", quando as palavras e as imagens são confrontadas.

 Lulu e o urso foi inspirado em Luisa, filha de Carolina e Odilon

 

Várias das histórias de vocês trabalham ideias em oposição – criança/adulto; urbano/natural; imaginação/realidade; onírico/concreto. Podemos pensar nesse aspecto como uma espécie de tema comum? Há outros que você identifique?

Carolina Moreyra – Acho que esse é mesmo o aspecto central das minhas ideias. Penso que o mundo, as pessoas, as coisas, são contraditórios, complexos, perpassados sempre por mil coisas, e cabe ao nosso olhar fazer o recorte. Procuro, nos livros, colocar coisas lado a lado, para provocar o leitor a pensar na relação sobre elas e como isso impacta sua vida, seus afetos e sentimentos. Então, na hora de desenvolver um texto, esse vai ser sempre o meu ponto de partida: do que eu estou falando? Com o que isso se relaciona? O que está em jogo? 

Em Lulu e o urso, por exemplo, o que está colocado ali é o lugar do adulto e o da criança, o estar junto e o estar separado, a imaginação e a avalanche de realidade que ocupa a nossa vida depois que nos tornamos grandes. Mas não quero dizer para o leitor como ele deve ler tudo isso, quero que essas coisas dialoguem com a realidade de cada um. E depois do livro pronto, vejo como surgem leituras bem variadas: mães que se sentem culpadas ao lerem porque acham que não estão dando a devida atenção à criança; ou mães que enxergam um estar junto, mas separado do dia a dia. As crianças tendem mais a embarcar na imaginação da Lulu e se surpreender com a linguagem, com o aparecimento do urso e com a expectativa de ver se o que elas imaginam que vai acontecer de fato acontece. Eu gosto disso, de pensar que o livro é um percurso que será percorrido por cada leitor. Nesse sentido o Lá longe vai também muito nessa direção. Os animais e seu universo, o menino e seu universo, cabe ao leitor pensar a relação que existe entre eles.

Ilustração do livro Lá longe, de Odilon Moraes e Carolina Moreyra, que contrapõe ambiente urbano com a mata e leva a questionar quem está de fato longe

Na mata, os bichos gostam de sentir o calor do sol, o frescor da água e a leveza do vento. Enquanto isso, lá longe, da janela de seu apartamento cercado de prédios, o menino sonha – Ilustração de Lá longe 

 

Durante as oficinas e as aulas de pós-graduação em que vocês lecionam juntos, tanto a vivência como professores quanto os aprendizados com os alunos impactam na escrita e na ilustração? 

Odilon Moraes – Acredito que muitos autores de texto já habituados à escrita tradicional sintam dificuldade de partilhar a condução da história com outros elementos do livro, como as imagens. Como dou aula para escritores e ilustradores que pretendem experimentar esse campo da criação, isto é, o da condução compartilhada da narrativa, acaba que eu me surpreendo realmente com alguns trabalhos de alunos. Fico fascinado quando vejo surgir grandes textos à espera de imagens (risos). Por duas vezes já me ofereci para ilustrar textos assim após o curso. Isso aconteceu com Casa de passarinho (Positivo, 2018), da Ana Rosa Costa e, mais recentemente, O pai da mamãe (Caixote, 2020), da Cristiana Gomes. Eram textos com um frescor de descoberta que só os iniciantes têm. Aprendo muito fazendo essas parcerias e tento dar em troca o meu melhor.

 

Lá longe nasce em que contexto, o que tinham em mente quando o criaram?

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