Vestibulandos e professores que vivem o vestibular da Unicamp o ano todo já sabem: não dá para fugir das leituras obrigatórias! A lista deste ano conta com 9 obras, mas como isso vai aparecer na prova? Quem escolhe os livros? E por que justamente esses títulos?
Antes de nos debruçarmos sobre a lista de livros do Vestibular 2027, vale fazer um breve percurso pela história das leituras obrigatórias da Unicamp e observar como elas se transformaram ao longo do tempo.

O primeiro Vestibular Unicamp com prova própria, elaborada pela universidade, foi realizado em 1987 (a Comvest, Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp, comemora 40 anos em 2027, e disponibiliza um memorial no site deles). Não encontramos registros da lista de leituras obrigatórias da segunda metade da década de 1980 nem do início da década de 1990.
A primeira mudança digna de destaque aconteceu no Vestibular 2001, com a inclusão de A Sibila, de Augustina Bessa-Luís. Esta foi a primeira vez que uma obra de autoria feminina passou a integrar a lista da Unicamp.
A partir de 2007, a universidade unificou sua lista de livros obrigatórios com a Fuvest, com três obras portuguesas e seis brasileiras. Esse modelo permaneceu até 2016, quando a Unicamp voltou a elaborar uma seleção própria.
No Vestibular 2019, a presença feminina cresceu discretamente. A lista passou a contar com três autoras: Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, que se tornou a primeira mulher negra a integrar as leituras obrigatórias da Unicamp, com o livro Quarto de despejo.
Outra mudança significativa ocorreu no Vestibular 2020, com a inclusão do álbum de rap Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC’s. Mantendo doze obras, essa foi a lista mais diversificada em termos de gêneros textuais.
Nesse mesmo ano, a entrada de A falência, de Júlia Lopes de Almeida, representou um importante movimento de revisão do cânone literário. Escritora de grande relevância no final do século XIX, Júlia permaneceu durante décadas relativamente apagada da história literária brasileira. Sua incorporação à lista da Unicamp contribuiu para recolocar sua obra em circulação.
Em 2021, a pandemia de Covid-19 provocou uma mudança excepcional. A lista foi reduzida de doze para sete obras, todas em domínio público, para facilitar o acesso dos vestibulandos durante o isolamento. Com três autores portugueses e quatro brasileiros, apenas uma das obras era de autoria feminina.
Nos vestibulares de 2022 e 2023, a lista voltou a crescer, passando para dez obras. A distribuição ficou assim: seis títulos brasileiros, três portugueses e um africano, graças à inclusão de Niketche: uma história de poligamia, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Apesar disso, apenas três das dez obras eram escritas por mulheres.
A partir do Vestibular 2024, a lista passou a ter nove obras, configuração que permanece até hoje. A principal novidade foi a inclusão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, primeira obra originalmente escrita em língua diferente do português a integrar a seleção. Também chama a atenção a redução da presença portuguesa a apenas um título: a Carta do achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha. Embora escrita por um autor português, trata-se de um texto cuja importância está diretamente ligada à formação histórica e cultural do Brasil. A escolha parece indicar um deslocamento do interesse da banca curadora dos títulos: mais que privilegiar a tradição literária portuguesa, a universidade passa a valorizar textos de documentos fundamentais para a compreensão da identidade brasileira.
O Vestibular 2025 trouxe mudanças relevantes no campo da representatividade. Passaram a integrar a lista A vida não é útil, do ativista indígena Ailton Krenak, e uma seleção de contos de Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. Pela primeira vez, a Unicamp incluiu uma voz indígena e um autor assumidamente gay entre suas leituras obrigatórias. Também foi a primeira lista sem qualquer obra de autoria portuguesa, fato bastante significativo, considerando a presença constante dessa literatura desde os primeiros vestibulares.
Essa proporção se manteve em 2026 e 2027. Em 2026, entretanto, a novidade ficou por conta da inserção da obra No seu pescoço, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
Chegamos, enfim, ao Vestibular 2027. Embora a autoria feminina continue representada por apenas duas obras, a diversidade geográfica se amplia mais uma vez. A lista reúne sete obras brasileiras, mantém a presença africana com Chimamanda Ngozi Adichie e incorpora, pela primeira vez, a literatura latino-americana de língua espanhola, com Os funerais da Mamãe Grande, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Trata-se de mais um passo no movimento de abertura do cânone promovido pela Unicamp, que, ao longo das últimas décadas, vem ampliando progressivamente o repertório de vozes, experiências e tradições literárias presentes em seu vestibular.
Assim, nossa lista para 2027 contém, no que diz respeito a gêneros literários:
- 1 obra de poesia (Prosas seguidas de odes mínimas, de José Paulo Paes);
- 1 obra de canções/poesia (Canções escolhidas de Paulo César Pinheiro);
- 1 obra de ensaios (A vida não é útil, de Ailton Krenak);
- 4 obras de contos (Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu; No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie; Olhos d’água, de Conceição Evaristo; Os funerais da Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez);
- 2 romances (Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto).
A quantidade de contos assusta: são 41 no total (6 de Morangos mofados, 12 de No seu pescoço, 15 de Olhos d’água e 8 de Os funerais da Mamãe Grande)! Eis algo a ser considerado pela equipe que toma as decisões a respeito da lista, já que os candidatos podem se confundir com tantas histórias de breve extensão.
Para o Vestibular 2028, esse número diminuirá, já que haverá “somente” 20 contos na lista. Mas isso não refresca a vida do vestibulando que presta prova ainda este ano…
De todo modo, este breve percurso histórico das listas de leituras obrigatórias da Comvest nos mostra como o vestibular atua não apenas como instrumento de seleção universitária, mas também como agente de construção e transformação do cânone literário escolar. Ao longo de mais de três décadas, podemos ver um movimento marcado por duas tendências complementares: a permanência de um núcleo clássico, formado por autores como Machado de Assis e Lima Barreto, e a ampliação progressiva do repertório. A partir da retomada da autonomia da Comvest em 2016, intensificou-se um processo de renovação que transformou profundamente a composição das listas. Cresceu a participação de mulheres (ainda que timidamente), autores negros e escritores africanos; ampliou-se a representação de diferentes nacionalidades; foram incorporadas obras contemporâneas e formas literárias até então ausentes do vestibular, como o diário, o rap, a canção popular e os textos híbridos.
Essas mudanças não representam uma ruptura com a tradição, mas uma redefinição do próprio conceito de cânone. Os clássicos permanecem presentes, mas deixam de constituir um repertório fechado e exclusivo.
As listas obrigatórias acompanham, ainda que com certo intervalo, transformações ocorridas na crítica literária e nas políticas educacionais. A recuperação de escritoras esquecidas, a valorização da literatura africana, a incorporação de autores negros e a ampliação dos gêneros dialogam com debates acadêmicos desenvolvidos nas últimas décadas sobre representação, memória cultural e processos de canonização.
Nesse sentido, a Comvest deixa de ser apenas uma instituição que seleciona livros para um exame vestibular. Suas escolhas influenciam editoras, escolas, cursinhos, materiais didáticos e práticas de leitura, contribuindo para definir quais obras serão efetivamente lidas por milhares de estudantes. As listas obrigatórias tornam-se, assim, um espaço privilegiado de negociação entre tradição e renovação, entre permanência e mudança, entre o cânone consolidado e as novas demandas da sociedade.
*Ju Palermo é doutoranda em Educação, mestra em Linguística Aplicada e licenciada em Letras-Português, tudo pela Unicamp. Tem mais de 20 anos de experiência docente com Ensino Médio, é revisora e preparadora de texto e comanda o canal Fala pra Camões no YouTube, com mais de 20 mil inscritos. É criadora do Método Bisturi, uma forma única e revolucionária de dominar as obras literárias exigidas pelos exames vestibulares.
