Literaturas indígenas ganham cada vez mais espaço

A literatura vem ganhando novos rostos nos últimos anos. 

Ainda bem. 

Já falamos sobre isso aqui no Blog Letrinhas. E graças a essas mudanças, podemos conhecer e celebrar autoras e autores que extrapolam o imaginário eurocêntrico (que ainda prevalece), nos revelando outras possibilidades de nos relacionarmos com o mundo, com o outro e de resgatar saberes ancestrais sobre nós mesmos e sobre nossa terra,  um país que carrega as consequências da colonização. Estamos falando especialmente da literatura indígena, que vem ganhando território já há algum tempo nas publicações dos nossos selos infantis.  

Maqueira de Tucum (Pequena Zahar, 2026)

Na Companhia das Letras  esse é um movimento intencional. A editora Débora Alves é uma das responsáveis por trazer para o grupo mais autoras e autores indígenas para os selos voltados a crianças e jovens, uma mobilização que ganhou força sobretudo a partir dos anos 2000, quando algumas leis – depois de décadas de lutas dos movimentos sociais – entraram em vigor para garantir mais diversidade à educação.

Em 2003, a Lei 10.639, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de todo o Brasil. Cinco anos depois, em 2008, foi publicada a lei 11.645/2008, que alterou o artigo 26 da LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB),  tornando obrigatório também o ensino de História e Cultura dos povos indígenas no currículo nacional. Essas medidas alteraram substancialmente o número de publicações de autores indígenas e atraíram a atenção para novas possibilidades de enxergar o mundo e de se relacionar com os seres que nele habitam. Mas, principalmente: permitiu que povos antes deixados à margem da História ou retratados pelos olhares brancos, tivessem direito a contar suas próprias histórias. É importante reforçar que essas leis, que atuam como políticas indutoras para dar visibilidade à cultura e aos saberes de povos que historicamente são colocados à margem, também são resultado de um esforço ativo e coletivo para preservar os direitos dos povos indígenas e proteger seus territórios – inclusive na esfera cultural. 

“Acredito que esse movimento é resultado de anos de luta e resistência de grupos indígenas que incansavelmente defendem a valorização da representatividade e do protagonismo na construção histórica, social e cultural do Brasil. Todos esses diálogos tomaram espaço no debate público nos últimos anos e, consequentemente, alcançaram os livros também”, explica a editora Débora Alves. 

Em 2023, Aílton Krenak, autor de Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2020), Futuro ancestral (Companhia das Letras, 2022), A vida não é útil  (Companhia das Letras, 2020) e do infantil Kujan e os meninos sabidos (Companhia das Letrinhas, 2024), em parceria com Rita Carelli, se tornou o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Filósofo, professor, escritor, poeta, ativista e ambientalista, Krenak se tornou uma das principais vozes a lutar pela visibilidade indígena e a defender o movimento ambientalista. 

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Culturas e literaturas indígenas – sim, no plural 

É sempre bom lembrar que não há uma cultura indígena, mas, sim, muitas culturas indígenas. No Brasil, de acordo com dados publicados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 1,7 milhão de pessoas indígenas no Brasil, sendo 1,2 milhão declararam sua etnia. São 391 povos que falam pelo menos 295 línguas indígenas. Entre os povos mais numerosos estão os Tikuna (74.061), Kaloma (64.327), Makuxi (53.446) e Guarani Kaiowá (50.034). Povos que têm seus próprios costumes, suas próprias crenças, suas próprias tradições. 

A cosmopercepção, uma visão na qual o ser humano não se separa da natureza, mas forma com ela uma unidade viva, é um ponto de encontro entre as diferentes culturas indígenas. “Cosmopercepção” é um termo que vem sendo cada vez mais usado nos estudos para ampliar essa compreensão. Foi cunhado nos anos 1990 pela filósofa nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí para descrever de forma mais inclusiva a relação entre os seres e o mundo, num contraponto à lógica ocidental, ampliando a concepção de mundo por diferentes grupos culturais. Nessa perspectiva, não há começo ou fim, mas ciclos. Tudo é cíclico e as mudanças são vistas como transições naturais.

“Há muito a aprender considerando a cosmopercepção indígena que envolve essa literatura. Por exemplo, a relação com o tempo, que não segue a uma lógica linear; a relação do protagonista com sua comunidade, que revela a importância das experiências coletivas; o papel dos elementos da natureza, que não são meros cenários, mas personagens ativos nas narrativas, extensão e parte indissociável da existência; a força da oralidade que carrega saberes e memórias, aspecto fundamental na construção de imaginários. Enfim, essas narrativas oferecem ao leitor inúmeras possibilidades de se relacionar com a literatura de maneira sensível e significativa”, pontua Débora.

Histórias de índio foi o primeiro livro de autoria indígena a ser publicado pelos nossos selos infantis

A multiartista Rita Carelli, parceira de Aílton Krenak nos livros , falou ao Blog Letrinhas sobre literatura indìgena em uma entrevista concedida em 2024: “A produção dos autores e artistas indígenas é muito profícua e potente e tem, felizmente, ganhado cada vez mais espaços. Nos livros, já temos algumas décadas de estrada com pioneiros como Daniel Munduruku, Eliane Potiguara e Kaká Werá, que abriram caminho para muita gente, mas, na última década, o movimento dos autores indígenas ganhou mais força e novos espaços dentro do mercado editorial. A maior parte da produção dos autores indígenas estava voltada para a infância, que é um segmento maravilhoso, mas ela não deve se restringir. Arrisco dizer que veremos muitas novidades nesse sentido nos próximos anos”. 

A editora conta que o primeiro livro de autoria indígena a fazer parte do catálogo do grupo Companhia das Letras foi Histórias de Índio (Companhia das Letrinhas, 1996), de Daniel Munduruku e Laurabeatriz. O livro começa com  o conto “O menino que não sabia sonhar”, que fala sobre Kaxi, um garoto que foi escolhido pelo pajé de sua tribo como seu sucessor. E na segunda parte, somos apresentados a partir da perspectiva indígena ao “mundo dos brancos”, abordando estereótipos. A publicação de Histórias de Índio foi um marco. E abriu caminho para muitas autoras e autores. Desde Márcia Kambeba, que assina Maqueira de Tucum (Pequena Zahar, 2026) e Cláudia A. Flor D’Maria, de Sou indígena! (Canoa, 2024) e A pororoca (Brinque-Book, 2024), Trudruá Dorrico, de O lago Pri Pri (Companhia das Letrinhas, 2025), Márcia Mura e Raquel Teixeira, de TanãMak, uma guerreira Mura (Brinque-Book, 2025),  Auritha Tabajara e Tai, de Tuiupé e o maracá mágico (Canoa, 2024), Eva Potiguara, de Biguru (Companhia das Letrinhas, 2025). E como estamos no campo da literatura infantil, onde a imagem tem mais presença, aumentamos a chance para conhecer também autoras e autores de imagem, expressão tão explorada desde sempre pelos povos originários.

E ainda não acabou. 

A editora Débora pergunta: “Posso dar um spoiler? Em 2027, temos novos autores chegando por aqui!”

Ainda bem.

(Texto: Naíma Saleh)