A espera foi longa. Depois de um hiato de 20 anos, os ingleses, Julia Donaldson e Axel Scheffler publicaram mais um livro do universo do monstro mais querido do planeta. Na esteira do fenômeno Grúfalo (Brinque-Book, 1999) e de O filho do Grúfalo (Brinque-Book, 2006), a família se expandiu com a chegada de A vovó Grúfalo (Brinque-Book, 2026), que traz de volta os personagens queridos que habitam o imaginário de gerações e apresenta ao público a matriarca dessa linhagem improvável.

A história começa com Grúfalo e a criança Grúfalo anunciando a visita da vovó, que “até sabe ler e escrever”. Essa pista pode até passar despercebida, mas vamos contar: ela anuncia um elemento importantíssimo da obra: a intertextualidade. A vovó Grúfalo é uma história que conversa com outras histórias tanto por meio do texto quanto das imagens. Em termos simples, a intertextualidade pode ser pensada justamente como esse diálogo que se estabelece entre um texto e outro que já existe. Ela propõe um modo diferenciado de construção de sentidos, no qual o leitor identifica e estabelece relações entre elementos de obras que já existem, incluídos na história que lê, como explica a professora e especialista em literatura infantil e juvenil, Silvia Oberg, que coordenadora programas de formação de mediadores de leitura e ministra cursos e oficinas de literatura. “Hoje, o conceito de intertextualidade se expandiu e não se limita mais apenas à relação entre textos verbais escritos, passando a considerar a interação com outras criações, como a música, a pintura, filmes, etc.”, explica.
Em A Vovó Grúfalo, a intertextualidade está presente não apenas na incorporação de elementos dispersos de outras histórias, mas na forma como o coração/argumento da narrativa se apresenta. Assim que o Grúfalo anuncia a visita da vovó, a dupla pai e criança parte para a floresta escura para “caçar gostosuras” – afinal, nada melhor do que receber a vovó com um belo jantar. No caminho, eles encontram com o ratinho – sim, ele mesmo! – que é imediatamente capturado para se transformar em iguaria. Preso em uma gaiolinha, prestes a virar ensopado, o esperto ratinho usa (mais uma vez!) sua astúcia para evitar esse destino terrível. “Que tal ouvir uma história sem compromisso?”, ele propõe ao Grúfalo e à criança Grúfalo, que a essa altura já estão com o caldeirão fervendo e as cenouras cortadas.
O ratinho, então, conta uma história. No dia seguinte outra e depois mais outra… E assim, vai distraindo o Grúfalo e a criança Grúfalo da ideia de transformá-lo em jantar. Soa familiar? A semelhança entre a estratégia encontrada pelo ratinho e a astuta Sherazade, de As mil e uma noites, não é mera coincidência. Nesse clássico, que reúne histórias de diversas origens, entre o folclore indiano e contos árabes e persas, Sherazade decide casar-se com um rei, que tem a fama de matar suas esposas depois de ter sido traído. Para salvar a vida de outras mulheres, e a sua própria, Sherazade vai desfilando histórias ao longo de 1001 noites. Mas sempre interrompe a contação antes do amanhecer.
Mais astutos que Sherazade e o ratinho só mesmo os autores, que escolheram histórias assinadas por eles, que já são conhecidas por seu público, para serem contadas pelo roedor em A vovó do Grúfalo. Ele começa pela de uma bruxa que vai deixando as coisas caírem de sua vassoura (Carona na vassoura, Brinque-Book, 2012), na noite seguinte conta uma de um macaco que perdeu a mãe (O macaco danado, Brinque-Book, 1999) e finalmente aquela sobre um caracol e uma baleia jubarte (O caracol e a baleia, Brinque-Book, 2019) .
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A intertextualidade na literatura infantil

Há muitas formas de se construir a intertextualidade pensando especificamente nos livros para a infância. “Muitas vezes, temos obras que conversam diretamente com os contos, fazendo uma releitura das histórias tradicionais, propondo alterações significativas no enredo ou nas características dos personagens, ainda que mantenham, por exemplo, seus nomes e suas falas”,
explica a professora Ana Carolina Carvalho, mestre em educação pela Unicamp e pesquisadora da formação de leitores em salas de leitura nas escolas municipais de São Paulo. Ela chama atenção especialmente para as menções aos contos de fadas, que costumam fazer parte do repertório das crianças, gerando um reconhecimento. O famoso diálogo entre a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, que todo mundo sabe como acaba, é um elemento que costuma ser usado para criar a intertextualidade e que aparece em Uma chapeuzinho vermelho (Companhia das Letrinhas, 2012), de Marjolaine Leray, de forma bem explícita. “As crianças costumam vibrar quando reconhecem partes do diálogo entabulado entre a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, neste caso, sem disfarce nenhum de vovó. A menina estranha o lobo tal como ele é, e isso já o coloca em uma situação frágil em relação à garota. O livro, portanto, aposta e conta com o conhecimento das crianças e brinca com suas expectativas, subvertendo o final”, comenta.
Ela cita ainda como exemplos de intertextualidade Que história é essa? (Companhia das Letrinhas, 1995), de Flávio de Souza, em que joga com o ponto de vista do narrador, criando uma inversão no protagonismo da história que provoca outras reflexões sobre as diferentes perspectivas dos personagens. Os direitos do pequeno leitor (Companhia das Letrinhas, 2017), Patricia Auerbach e Odilon Moraes, em que, a cada página, “a ilustração faz alusões bem claras a histórias bastante conhecidas das crianças, por vezes misturando contextos, personagens e enredos”, como explica Ana Carolina. Além de Estátua (Companhia das Letrinhas, 2024) e Bárbaro (Companhia das Letrinhas, 2026), ambos de Renato Moriconi, que fazem alusões a histórias da mitologia grega nas ilustrações. Essas imagens podem até estar um pouco mais distantes do repertório infantil, mas que fazem parte do repertório universal.
“A intertextualidade acontece nos livros de literatura para as infâncias do mesmo modo que nas obras para adultos. A diferença talvez esteja na escolha das referências a serem feitas, ou seja, na seleção de alusões que possam fazer sentido para a criança ou que possam ser por ela compreendidas a partir de mediações feitas pelo adulto”, Silvia Oberg
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Como a intertextualidade pode contribuir com a experiência e a formação leitora
Quando uma história faz referência à outra, por meio de textos ou imagens, só há dois caminhos possíveis: ou você conhece essa obra referenciada ou não. A partir dessa bifurcação, a experiência de leitura pode ser diferente.
Para Ana Carolina, há, de fato, textos que dependem mais do conhecimento prévio do leitor. Nesses casos, o conhecimento anterior ajuda muito a construir os sentidos nesta nova leitura. “O leitor já parte de um certo lugar e vai atribuindo sentidos sempre em referência à história conhecida, aprendendo a realizar comparações, estabelecer diálogos entre as histórias quando lê, lançando mão o tempo todo de seu repertório, coisa que acontece sempre que lemos, mas que, nesses casos, se evidencia. E pode ser muito prazeroso entrar nesse jogo, nessa brincadeira, nessa conversa entre os textos”, explica. Quando a criança reconhece que ali naquela história há algo que ela já conhece, mas que precisa ser interpretado de uma nova forma, ela assume uma postura mais ativa. “O leitor precisa comparar, estabelecer relações, perceber o que foi mantido e o que foi modificado”, explica.
Vale lembrar que desconhecer as referências que um texto que apresenta não significa que o leitor não será capaz de lê-lo, fruí-lo e até construir outros sentidos, mas talvez não consiga mergulhar tão fundo. “Se o leitor conhece esses elementos referenciados, sua leitura se potencializa e terá maior densidade e um número maior de “camadas” de sentidos”, pontua Silvia. Nesses casos, ela chama atenção para a importância da mediação das obras, seja do professor, do bibliotecário, ou dos dos pais para apoiar a criança a se apropriar da história de forma mais plena, ajudando-a a identificar o entrecruzamento de histórias e vozes proposto nas obras. “Para a criança, geralmente é uma alegria reconhecer essas ‘pistas’ – ela descobre de forma lúdica e afetiva que uma história pode se relacionar com outras”, conclui Silvia.
E assim, a intertextualidade vai tecendo essa espécie de teia encantada entre histórias, que faz ecoar as vozes de personagens já conhecidos, cria pontes entre mundos e traz ao leitor a sensação de estar em casa.
(texto: Naíma Saleh)
