A oralidade na origem das histórias: a valorização dos saberes que não estão no papel

“— Vó, não vai ter caso hoje?”

Todas as crianças já estavam aboletadas nas redes na casa da Vovó Didi. Nas noites enluaradas era assim: parentes, amigos e andarilhos se achegavam. A casa ficava cheia. E Vovó Didi contava histórias. Em Anete e o peixinho Bambo (Companhia das Letrinhas, 2026), de Isabella Miranda e Michelle Cunha, a história começa antes da história: com a retomada do ritual que envolve os contos de tradição oral: a reunião de gente, a espera, as interferências. 

A história que se segue, o causo propriamente dito, conta a jornada fantástica da menina Anete, que assim como a autora Isabella, também é da Ilha do Marajó, no Pará. Anete tinha um amigo improvável, um peixinho dourado chamado Bambo. Todas as manhãs, a menina ia até o lago Ariri, chamava por Bambo, pulava em suas costas e juntos eles davam uma volta pelas águas. E Anete voltava para casa contente e molhada – o que despertou a inveja do padrasto. “Ele era um homem mau e sentia raiva ao ver a alegria com que Netinha voltava dos passeios matinais”, conta Vó Didi. O homem, então, bola um plano cruel para acabar com a alegria da menina…o que traz ao livro um desfecho que pode ser difícil de aceitar.

Em Velho Sertão (Companhia das Letrinhas, 2025), de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino, o final também surpreende. A história, que Fernanda ouvia de seu pai, fala de um menino que atravessava a aridez do sertão, debaixo do sol a pino, montado em seu burrico, para trabalhar. E todo dia, ele cruzava com um senhorzinho à porta de casa. O menino pedia um pouco d’água ao velho para aliviar a sede e o calor escaldante. E repetidamente, o velho respondia que não tinha. Até que o menino descobre a mentira e bola um plano para se vingar – usando os esparsos recursos de que dispõe. 

Anete e o peixinho Bambo e Velho Sertão são histórias que nasceram contadas. Histórias que já faziam parte de um imaginário, seja de uma comunidade, seja de uma família, bem antes de serem estampadas nas páginas dos livros. Histórias que não trazem exatamente um final feliz nem exemplos de , mas que apresentam também a crueza do mundo, uma certa maldade que insistimos em afastar da infância. 

A oralidade e o corpo como guardião de memória

Não custa relembrar que quando falamos de “oralidade” não estamos falando de algo que ficou no passado, mas que vêm de tempos ancestrais e permanece vivo até hoje, pois faz parte da natureza humana. Para a educadora Fabiana Cortes, licenciada em Letras, doutora em Pedagogia da Diversidade Sociocultural pela Universidade Complutense de Madrid (UCM) e em Cidadania Global pela Universidade Fernando Pessoa (UFP), em Portugal, a oralidade traz essa possibilidade de imprimir um tom, um ritmo e propicia um contato mais próximo entre quem conta e quem ouve a história. “A voz ajuda a modular as emoções. Isso o livro escrito sozinho não faz, depende de quem está lendo. Com a oralidade, a história vem acompanhada de um gesto, de um olhar. Isso já é uma mediação. É uma ponte entre histórias e corpos”, explica. 

Assim como a dança, a música, encenações e jogos, a contação de histórias é também um tipo de performance. A artista Marina Abramovic definiu performance como “uma construção física e mental que o artista executa num determinado tempo e espaço, na frente de uma audiência. É um diálogo de energia, em que plateia e artista constroem juntos a obra” em um TedTalk de 2015. E essa definição pode perfeitamente servir para a contação de histórias. 

Em Performances da Oralittura: Corpo, lugar da memória (na revista Letras, da Universidade Federal de Santa Maria), a poeta, ensaísta, acadêmica e dramaturga mineira Leda Martins defende em sua pesquisa que corpo e voz são “portais de inscrição de saberes de vária ordem”. “Minha hipótese é a de que o corpo em performance é, não apenas, expressão ou representação de uma ação, que nos remete simbolicamente a um sentido, mas principalmente local de inscrição de conhecimento, conhecimento este que se grafa no gesto, no movimento, na coreografia; nos solfejos da vocalidade, assim como nos adereços performáticos que o recobrem”, escreve.

Esse ponto de vista invoca a ideia de corpo-arquivo. De um corpo guardador de conhecimentos, de saberes e memórias. Há um provérbio africano que diz: “Quando morre um ancião, morre uma biblioteca inteira”. Nas culturas não-ocidentais, os contadores de histórias podem ser homens ou mulheres, mas geralmente são as pessoas consideradas mais sábias, por vezes, as pessoas mais velhas. Há uma valorização dos saberes adquiridos de forma empírica, nas vivências e causos colecionados ao longo da vida. Não por acaso, ser o guardião das histórias de um povo, o griô, é uma posição de prestígio.

Quem tem o direito de contar histórias?

A pesquisadora Leda Martins fala sobre o predomínio no Brasil das histórias textuais e da retórica europeia, como legitimadores do que é considerado conhecimento. “A memória, inscrita como grafia pela letra escrita, articula-se assim ao campo e processo da visão mapeada pelo olhar, aprendido como janela para o conhecimento. Tudo o que escapa pois à apreensão do olhar, princípio privilegiado da cognição, ou que nele não se circunscreve, nos é ex-ótico, ou seja, fora de nosso campo de percepção, distante da nossa ótica de compreensão, exilado e alijado de nossa contemplação, de nossos saberes”, escreve. 

É como se o que não estivesse registrado em forma de texto não tivesse valor. Como se as memórias e saberes guardados no corpo, os conhecimentos que levamos dentro, não fossem legítimos. E essa hierarquização acaba construindo histórias únicas em que predominam narrativas construídas sob pontos de vista bem específicos: brancos, masculinos, socialmente privilegiados. 

E, nesse sentido, contar histórias e proteger as tradições orais é, sim, uma forma de resistência. “É carregar no corpo a história não oficial. Permanecer contando, não só através da fala, mas também através da música, das encenações, é uma forma de preservar e manter vivo um texto que está registrado, que é um saber”, defende Fabiana.

Palavras mais soltas

Ao contrário dos textos escritos, a oralidade não passa por um processo de edição. 

É claro que as histórias contadas vão se modificando ao longo do tempo, que são permeáveis a novos tempos e à subjetividade de seus contadores – que imprimem o ritmo, escolhem as palavras, modificam detalhes. Mas a oralidade pressupõe maior liberdade, sem tanta fixação na busca pelo “adequado” ou não a uma concepção de “apropriado ou não”  às infâncias. Até porque, na origem da contação de causos, essa não era uma preocupação. “As histórias africanas, negras, diaspóricas, indígenas, partem da vivência, sem um recorte do que é literatura infantil ou adulta. Em uma cosmopercepção (termo cunhado pela pesquisadora nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí), tudo está conectado e as crianças participam da vida da comunidade em todos os tempos e vivências. E isso se traduz na oralidade – não tem uma classificação de idade. É um emaranhado em que tudo se conecta: corpo, natureza, espiritualidade, vivência com os outros seres, trabalho, relações”, explica Fabiana. 

Essa vivência mais integrada também aproxima o real e o inventado. O perigo não está mais escondido em uma floresta escura… Pode estar ao lado. Em um mundo que a criança habita – até dentro de casa, como aconteceu com a menina Anete. Da mesma forma, o fantástico também se aproxima do dia a dia, sem muitas explicações. Como aconteceu?

Como diria Chicó, o inesquecível personagem de Ariano Suassuna: “Não sei. Só sei que foi assim”.

Por Naíma Saleh

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